quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O salário não cabe dentro do meu mês.

Passei anos sonhando ganhar o que ganho atualmente. Acreditava - eu juro! - que neste ponto poderia viver a vida planejada com a qual sempre sonhei. Foram tantos planos para esse contra cheque que eu nem consigo listá-los todos aqui. Eu sonhei e nos sonhos eu era feliz. 

E aí você deve estar se perguntando: o que é felicidade pra mim? Ora, eu respondo, o que é pra todo mundo: ter dinheiro o suficiente para pagar as contas, ter uma casa legal, dar umas escapulidas durante o mês, viajar de vez em quando e só se ocupar de problemas outros - nunca com dinheiro. Hoje eu ganho o que sempre acreditei que seria suficiente e, pasmem (mas acho que vocês já sabem), o salário não cabe dentro do meu mês. 

Ahhhhhhhhhhhhhhhh, vocês devem pensar, tá estourando os limites. Deve estar indo a restaurante todas as semanas, no mínimo uma viagem por mês, roupa nova da mesma forma e outras trivialidades. Mas meu dinheiro fica em 4 coisas apenas: escola do menino, plano de saúde, carro + seguro e combustível. Todo o resto - quando a gente consegue desenrolar, é mágica para pagar cartão de crédito, academia e acreditar (mesmo sabendo que é mentira) que no próximo mês vai ser diferente. Mas não vai. Nunca é. 

É sempre uma corrida desesperada para fechar o mês e não ficar devendo para ninguém. E os planos, aqueles com os quais a gente sonha vividamente e sabe que seria feliz, vão ficando mais empoeirados, esquecidos na prateleira de tudo aquilo que a gente não categoriza como prioridade. Hoje eu ganho o que sempre sonhei e só consigo sobreviver. 

Voltei a ter crises de pânico. O coração dispara, palpita em desabalada sinfonia; o ar torna-se rarefeito e quase não chega aos pulmões. E meus olhos - ahhhhh meus olhos - meus olhos são só cansaço. Cansaço por essa maratona que nunca tem um vencedor. Por essa disputa para conseguir chegar na frente da próxima conta. Por essa falta de horizonte na próxima esquina. 

Talvez no próximo mês seja melhor. Mas eu não estou muito certa disso.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Meus olhos doem e tudo que eu queria era não estar aqui



Cansei. Cansei, mas não é de hoje. Faz tempo que eu acordo com os olhos doloridos, como se já tivesse visto coisas demais e não quisesse mais enxergar. Eu acordo e meus olhos doem. Hoje fazem 84 dias que estou em casa, tentando respeitar ao máximo o distanciamento social que, teoricamente, evita o contágio pelo novo coronavírus. Então, deduzo, meus olhos não doem por causa da luz do sol. Com certeza não é fotofobia. 
 
Meus olhos doem e eu sei que minha carência é de esperança. A esperança do Cortella, aquela do verbo “esperançar”. Parece que ela, aos poucos, mingua, definha em mim. A minha esperança neste país está morta e tudo que eu mais queria era simplesmente não estar aqui. Não, eu não queria estar nesse aqui e agora, onde tudo é caos e truculência. Onde a mentira ganhou espaço e parece comandar, com maestria, os rumos dessa nação desgovernada. A mentira tomou conta de tudo. 

Todos os dias quando eu acordo sinto que ela tenta, com furor, invadir a mim também. Tenho me questionado se quem acredita neste réquiem de morte e falácia vive com mais paz. Ignorância é felicidade, eles dizem. Será, então, que eles vivem com o coração pacificado e a mente branda? Será que a ignorância traz a felicidade que eu tanto busco? Tenho taquicardia e meus olhos doem. 

Dia após dia, eu convivo com essa avalanche de notícias hediondas. Pessoas morrem aos milhares de coronavírus; mais um negro é morto nos Estados Unidos; o movimento antirracista explode no mundo inteiro e ganha ares de grupo terrorista na boca falaciosa dos poderosos; Bolsonaro comete crime de responsabilidade; o Carlos mandou matar a Marielle?; Trump está nu – de corpo e de vergonha; o governo está militarizado; o presidente manda todo mundo tomar no c*; isolamento social é relaxado; mais um monte de gente adoece e morre de covid-19; Mourão desconstrói discursos coerentes; apoiadores do presidente ironizam a dor de milhões; fakenews, ovo da serpente; manda prender todo mundo, começando pelos vagabundos do STF. 

Meus olhos doem e tudo que eu queria era não estar aqui para ver tanto ódio.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Maturidade, Dinheiro, Sonhos, Cenouras e mais um mói de coisa nesse meu balaio de gato

"Quando eu era pequena
minha mãe me disse:
- Baby! Você vai se arrepender!
Pois o mundo lá fora
num segundo te devora
dito e feito, mas eu não
quis dar o braço a torcer"



Mainha estava certa: o mundo nos devora mesmo (principalmente o mundo de hoje, totalmente conectado, onde todos nós somos heavy users das redes sociais - escravos, eu ouso dizer). A vida tem me engolido, digerido vagarosamente como uma sorrateira e grande cobra que acaba de comer. Estou sendo digerida por ácidos muito tóxicos, os quais roubam tudo de mim, tudo o que sou.

Ok. Confesso. A culpa é toda minha. Tenho me descoberto (aposto que muita gente já sabia) uma pessoa, digamos, sem paciência. Sou impulsiva, adrenérgica, resoluta e pouco afeita a críticas. Mas, a que talvez seja a descoberta do século, é que eu sou uma pessoa ilimitável. Incrível como esse adjetivo de dois gêneros de repente me define inteira. Se me sinto presa, surto. Se me sinto tolhida, retruco. Se me sinto pressionada, apequeno. E nessa hora, se descuido, quase sumo.



Novamente de mãos atadas, tenho sentido vontades estranhas de consumir o mundo. Ser iconoclástica, desbravadora, ter liberdade para ser uma agora e outra, quem sabe, mais tarde. Às vezes olho pro meu marido e, num rompante, quase grito: vamos, amor! Vamos tomar picolé na chuva. Vamos cair na estrada, sem rumo, sem nada, e apenas sentir o frescor do vento em nossos rostos cansados. Eu e ele. Duas pessoas ilimitadas e aprisionadas no furor da roda da vida.

Deve estar uma delícia <3

Onde será que a minha estrada vai dar?

A verdade é que esse mundo não foi feito para pessoas ilimitadas. Ele te molda numa forma específica, te obriga a ser uma cópia industrializada e te senta a bunda numa cadeira dura, cercada de paredes escuras por todos os lados. E, pra pagar as contas, a gente se rende às oito horas diárias e à desconfiança alheia de gentes que não confiam na nossa capacidade.

Faz parte, eles dizem. E eu até tendo entender que é assim mesmo. Mas, será que faz parte ser diminuída? Será que faz parte sentir-se vigiada, observada, julgada, medida? Será que faz parte mesmo se acostumar com essas correntes traduzidas em palavras veladas? Será que vale a luta?



O mundo em que eu vivo não me permite duvidar dessa verdade (im)posta.Há contas para pagar. Há planos para viver, Há cenouras para serem penduradas em pequenas varinhas. Há a esperança de ser, enfim, liberta - quem sabe o dia.

Vai chegar o dia em que o mundo será meu. E ai, caro leitor, ninguém me segura.




sábado, 7 de dezembro de 2019

O filho que eu nunca tive

Não há sapatinhos vermelhos
Nem tampouco chá de fraldas
Também não há cheirinhos, enjoos
Ou milhões de mamadas.
Não há carrinhoela casa
E nem berço atrapalhando tudo
Não há choro na madrugada
Nem fralda, nem risinhos, nem nada.
Não há nada
Há só silêncio.
Há só vazio
Ha só desejo.
Não tem mais nada..


sexta-feira, 3 de maio de 2019

Seja positiva, eles dizem. Mas hoje eu só quero dormir.



Às vezes, o silêncio fala mais do que qualquer discurso. Tenho estado muito em silêncio. Num encontro inaudível com meus medos, frustrações, sonhos engavetados. Sofro em silêncio. Rumino em silêncio. Fala não parece mais ser suficiente, pois as palavras me soam falsas ou não conseguem exprimir com exatidão tudo isso que mora dentro de mim. 

São tempos difíceis. Carrego, no semblante, uma ruga eterna de preocupação e terror. Se antes eu corria rumo a um horizonte de oportunidades, hoje tudo o que vislumbro é uma grossa névoa, cinza, densa e confusa. Eu também estou confusa. Pareço andar em círculos, como um peru doido ou uma galinha sem cabeça, logo após o abate. Tudo isso me abateu. 

Confesso que estou apática. Sem esperanças, sigo nessa direção meio sem rumo, meio cheia de vontade de chegar (só que aonde, eu ainda não sei). 

Sempre imaginei minha vida como um plano muito bem estruturado. Tinha os ingredientes e a receita e, como todo mundo, bastava misturar tudo com cuidado que a tal vida de comercial de margarina aconteceria. Estudei, trabalhei, fui honesta. Reinventei caminhos quando os meus, abruptamente, se fecharam. Abri janelas quando as portas simplesmente se fecharam. Fui à luta. Isso eu digo de boca cheia. EU LUTEI. 

Lutei contra um sistema animalesco, que nos digere lentamente. Como uma anaconda, ele nos engole inteiros, enquanto nos destrói paulatinamente, sem pressa, tirando toda e qualquer energia do sujeito. Aqui, a pessoa vira mera peça de reposição, descartável, usável até sua ultima gota de furor. O sistema roubou meu sexappel e me transformou nesse borrão tosco de mim mesma. 

Seja positiva, eles dizem. Acredite que tudo vai dar certo. Mas, como crer num futuro certo, se a incerteza desses tempos só nos dá desilusão? Tenho lutado contra mim mesma, isso sim. Lutado para me manter em pé, alerta e viva. Lutado para não desistir. Lutado para conseguir respirar e, assim, vislumbrar novos horizontes. 

Seja positiva, eles dizem. Mas hoje eu só quero dormir. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Espero que em 2019 eu possa bater um monte também.




O moço das frutas cortadinhas ainda na estava na esquina. Os flanelinhas dançavam frenéticos, tentando organizar o trânsito caótico do primeiro dia útil do novo ano. Mas já era dia 2. Já haviam se passado dois dias de um 2019 adiado, nada ansiado. O sol continuava a brilhar, um calor dos infernos já às 8h da manhã. Mas nada naquela manhã me arrombava a retina. Não havia a beleza costumeira daquelas cenas matutinas e tão banais.

Na cabeça, os pensamentos cutucavam-me, malévolos, quase me levando à loucura. Recomeçava em mim a rotineira faxina nas prateleiras das minhas prioridades. Mais uma vez me vi arquivando sonhos, guardando expectativas e promessas feitas ao meu filho no andar mais alto da minha estante de planos. (Re)começar de novo, mais uma vez. Só pra variar. Acontece – tome nota, Deus. Essa é pra você -, que eu gostaria de continuar sonhando, pelo menos por um período maior de tempo.

No whatsapp, as mensagens pululavam tresloucadas, tentando fazer piada com a grande piada na qual nos tornamos. Eu respondia a todas com gargalhadas e carinhas divertidas que somente existiram no digitar dos meus dedos. No rosto, apenas a expressão cansada de quem não agüenta mais. Ouço frases motivacionais que tentam me levar a acreditar que a vida é mesmo esse sobe e desce; esse escalar constante de montanhas quase intransponíveis. Eu devo estar escalando o Everest.

Não sou uma pessoa fácil, quem me conhece sabe. E, com a idade, tenho me tornado mais difícil ainda. Tem sido difícil engolir certos comportamentos, determinadas pessoas e essa vida que não se reinventa. Hoje eu só não quero mais ser capacho do tempo, da vida e nem de ninguém. 2018 foi ano de porradas. Levei muito soco no estômago, tapa na cara, murro no olho. Resultado: sorriso esburacado, corpo sofrido e alma calejada. Espero que em 2019 eu possa bater um monte também.

Enquanto aqui dentro tudo é turbilhão e escuridão, lá fora o mundo parece continuar (quase) do mesmo jeito. E eu temo que tenhamos apertado o botão para rebobinar a fita e regredir anos e anos na história. Minhas costas doem. Se é a idade ou o peso da vida, tanto faz. Eu apenas estou certa de que não agüento mais.  

segunda-feira, 26 de março de 2018

tTudo é silêncio nesse turbilhão dentro de mim



Dia desses, estudando o nosso português, língua materna, li que o discurso centrado no "eu" pode passar a ideia de individualismo exacerbado e de certo pedantismo. Eu, no entanto, não consigo sair de mim. Esse espaço aqui dentro, que é só meu, tem sido, nos últimos tempos, o único que me comporta. Ando fazendo esforço demais para me encaixar em espaços os quais, eu sinto, não me abrigam. 

Não mais. 

Sigo lutando, assumo, para caber nesses recônditos do outro por muitas razões, tantas, tão díspares e confusas, que eu não sou capaz de listar. Apenas sigo, absorta nesse tudo que não sou eu, para manter as bases de uma estrutura que, eu sou capaz de jurar, qualquer hora quebra. 

Qualquer hora dessas eu vou desabar. 

O discurso do nós, agora, me parece tão distante. Tal e qual a uma falácia, ele me soa cínico, sarcástico e mordaz - a grande piada da (in)tolerância. O nós não quer ser coletivo. Ao contrário: ele continua a delimitar seus espaços, me fazendo ter a certeza de que desse nós eu não participo mais. Talvez nunca tenha sido parte, enfim. 

Busco, por hora, a minha paz. 

Essa sensação de plenitude, sobre a qual os filósofos e praticantes de yoga tanto falam, nunca foi minha. Esse sentimento de se estar onde deveria estar nunca me pertenceu. Sinto-me deslocada, descolada da imagem - que deveria ser eu! - mas somente reflete o outro. 

O nós e eu. 

Tudo seria fácil se a gente pudesse voltar a fita. Imagina apertar um botão e recomeçar a vida? Lá, naquele ponto específico (e que a gente sempre sabe qual é), quando deveríamos ter escolhido o eu, ao invés do nós. O nós nunca foi eu. É o retrato quixotesco do que a minha vida se transformou. 

São meia noite de uma segunda-feira qualquer e todos os meus pensamentos estão misturados, agitados, correndo doidos pelo meu cérebro pragmático. Dançam, bem na minha frente, contas, balanços, amores e decisões que precisam ser tomadas. Gritos de independência que precisam ser expelidos. Cordões que precisam ser cortados. Passos que precisam ser caminhadoa. Enquanto isso, estou estática - a grande dicotomia de correr e nunca sair do lugar. 

Eu bem sei o que deveria ter feito. Sei, também, o que deveria fazer agora. Tento me dar ordens. Recorro a Deus. Silêncio. 

Tudo é silêncio nesse turbilhão dentro de mim