sexta-feira, 16 de março de 2018

O amor que grita


Amor, amor mesmo, de verdade, é um troço engraçado. Mesmo quando inerte, guardado, ele se mantém vivo, na esperança de um dia, enfim, ir além. O amor quer simplesmente existir. 

Como dizia o Vinícius, com seus versos de magia e encantamento, amor, que é amor na vera, é "eterno enquanto dure", mesmo que não seja imortal, "posto que é chama". Esse sentimento enlouquecedor, arteiro, que brinca com as entranhas do sujeito, só não quer passar despercebido. Não quer morrer sem ter nascido. Sem nem mesmo ter feito a felicidade - ou o sofrimento, que seja -, de um qualquer transeunte desavisado. 

Ele se reinventa com o passar dos anos, fazendo de farândola aqueles que lhe ousam desafiar. "Desnorteia os astros", e "segue indiferente, indiscritivelmente são". Quem passa pelo amor e não fica, não se demora, termina com a pele sofrida, rasgada pelo sentimento que tudo arraiga e destrói. Amor é perigoso, anjo travestido, caído, que confunde as demandas de quem só quer seguir em frente. 

Com o tempo, eu acabei aprendendo que, na verdade, existem várias espécies de amor. Eles têm cores e dores diferentes, graus diversos de persistencia e uma existência que depende sobremaneira de sua intensidade. Aprendi que os grandes amores não são os bons, verdadeiramente. Eles cegam, trocam os
rumos, embaralham as diretrizes e deixam cicatrizes que, de fato, nunca fecham. 

Já o amor maduro, perene, não tem essa intensidade grandiosa. Mas é o amor que salva, que fica e que se faz ficar. Ao contrário do amor intenso, imenso, ele se eterniza nas pequenas coisas do passar dos dias. Nos perdões silenciosos pelas muitas patadas da rotina, nos pequenos cuidados escondidos atrás de gestos aparentemente inóquos, num cuidar despretensioso e continuo, numa certeza de não sei o quê, a qual obriga o sujeito a pagar o preço e a persistir. 

É bom experimentar o amor arraigado. Acho bem saudável conhecer a nossa capacidade de amar em demasia. Mas a vida acontece na realidade da nossa existência, tão crua e às vezes nem tão atraente. E quem fica depois de conhecer o pior de um outro qualquer é, por certo, o grande amor da sua vida.

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